O custo de compensação
Trabalhei com um engenheiro que tinha um hábito curioso: ele não conseguia ficar sentado fazendo seus projetos. Anos depois, entendi o que estava acontecendo.
Trabalhei durante um tempo com um engenheiro de projetos que tinha um hábito curioso.
Ele dificilmente conseguia ficar muito tempo sentado.
Levantava, conversava com alguém, olhava o WhatsApp, se distraía com alguma coisa e depois voltava para o projeto.
E isso era um problema.
Os projetos voltavam com erros. Precisavam ser refeitos. Às vezes voltavam novamente.
O trabalho dele exigia horas em frente ao computador, concentração, atenção aos detalhes, domínio de normas e processos.
Mas ele parecia não conseguir.
Com o tempo, começou a ser visto na empresa como um profissional fraco.
Eu mesma me irritava com ele.
Até que um dia ele criou uma planilha de Excel extremamente complexa.
Levou bastante tempo para terminar, mas aquilo colocou uma dúvida na minha cabeça:
Talvez o problema não fosse simplesmente falta de capacidade.
Algum tempo depois, conversamos sobre sua escolha profissional.
Ele me contou que tinha escolhido engenharia pelos bons salários. Na conversa também apareceu o orgulho dos pais e o status de ser visto como alguém inteligente por ser engenheiro.
Aquilo me fez olhar para ele de outro jeito.
Eu não sei se engenharia era a profissão errada para ele.
Mas comecei a perceber o tamanho do esforço que ele parecia fazer apenas para desempenhar o próprio trabalho.
Quanto de energia gastava para fazer tarefas básicas?
Quanto esforço mental precisava fazer para manter a concentração?
Quanto custava emocionalmente errar, refazer e ouvir as críticas?
Anos depois, encontrei um nome para isso:
esforço de compensação.
É o esforço adicional que fazemos para cobrir a distância entre aquilo que um trabalho exige e aquilo que encontra sustentação em quem somos.
E o grande problema é que esse esforço pode funcionar.
Podemos até alcançar bons resultados usando o esforço de compensação. Mas pagamos caro para isso.
Esse custo pode aparecer no cansaço, na procrastinação, na frustração, na autocobrança e até na percepção que construímos sobre a nossa própria capacidade.
Hoje, quando lembro daquele engenheiro, não penso mais:
"Por que ele não conseguia ser um engenheiro melhor?"
Penso:
Quanto custava para ele ser engenheiro?
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